quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Os dias diferentes

António, português beirão, gozou na semana passada as suas férias anuais. Férias de inverno, como determina a estrutura europeia, em época baixa, como impõe a conjuntura portuguesa. Viajar, repousar e poupar levaram-no a Andorra, lugar quase perfeito para um homem como ele e mais-que-comum para cidadãos como ele. Nem ele sabia quanto, desta vez que repetia o destino já habitual.
Noutras temporadas levava de provisão cigarros com o sabor e o valor de Portugal. Reserva dispensada desta vez, foi à tabacaria no dia da chegada: tabaco português, lavrado e enfardado na agricultura de Portugal, torrado, embalado e encigarrado na indústria portuguesa, exportado pelo pátrio comércio externo para ser vendido pela moeda comum. Comprou o SG de sempre, em tudo igual ao de cá, mas mais internacionalizado na língua de advertência sanitária da embalagem e menos lusitano no custo. Pagou metade do preço que em Portugal é pago pelos portugueses para comprarem cigarros portugueses. Soube-lhe bem a poupança, caiu-lhe mal a comparação. Na caixa do supermercado recebeu o troco acompanhado de um “obrigado e que tenha boas férias” em português de lei, cantado à castelhana com voz de Trás-os-Montes. Mais uma.
Foi profético o início da estadia. Nos dias que se seguiram, calles, avingudas, eaux-de-toilette ou cheeseburgers foram sorvidos e servidos em português de entoações que diferiam do transmontano-catalão ao beirão-castelhano, na ironia de uma pátria comum em que os euros pagos à imigração são cada vez mais distantes dos escudos contabilizados no aforro emigrante. A livre circulação de Schengen a ressuscitar o sentido obrigatório de pessoas no espaço comum: de sul para norte, começando de oeste para leste.
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Passaram apenas os primeiros dois dias. À hora de fechar o bar do hotel, ficou à conversa com o jovem que atrás do balcão fazia as últimas arrumações. 31 anos, licenciado em Turismo, 18 meses de prática num hotel internacional do Porto em que se sentiu bem tratado mas onde não há contratos de trabalho por tempo superior a 6 meses vezes 3 vigências; depois, cafés e bares em trabalho de 12 horas diárias, com salário mínimo e sem direito a horas extraordinárias. Quis casar, mas não tinha rendimento suficiente; para arrendar ou comprar casa, nem pensar - a mensalidade do carro comprado em 4ª mão levava-lhe quase 50% do salário. Perspectivas de futuro, só piores do que as dificuldades já vividas. Resolveu emigrar. Suíça ou Luxemburgo eram o ideal, França não seria mau - mas tudo "paraísos" impossíveis. Muniu-se de 40 cópias do curriculum vitae e ala para Andorra. Ali estava, feliz da vida: pão, leite, carne ao preço português, mas salário de 2.000 euros, incluindo horas extraordinárias contabilizadas ao minuto. Voltar a Portugal? sonho de realização impossível. E regressar para quê, ou para o quê?
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No dia seguinte deu um salto à Coffee-Shop "O Castro" - onde o Benfica-Sporting (ou ao contrário?) juntava a comunidade portuguesa à volta da Sport TV. Jogo empatado, resultado a calhar melhor a uns do que a outros e satisfeitos, satisfeitos, só os do Porto, que de resto pareciam ser a maioria. No final do jogo, a discussão dos lances capitais ia das mesas ao balcão do Sr. Castro, sem intermediários nem confidências. António fez a conversa deslizar para o Lisboa-Porto, a Serra da Estrela, a confusão escudo-euro e mais as trivialidades adjacentes. Final estranho: indignação contra o solo-pátrio próprio, à mistura com saudade traduzida por palavras sentidas e até duas lágrimas eloquentes. Sempre a comparação com Andorra - terra mais pequena, solos de pedras-só e indústria-nenhuma, onde a organização política e o conforto social parecem justificar tudo, tanto ou mais que o turismo bem aproveitado. E as praias portuguesas? e as maravilhas monumentais, paisagísticas, históricas do jardim-à-beira-mar-plantado? e a capacidade trabalhadora dos portugueses, campeões nas mais difíceis jornadas fora-de-casa?
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Foram curtas as férias - mais curtos os sete dias do que a semana habitual. Voltou inquieto à terra que foi de Camões.