Uma das mais perversas formas de iludir a ética da actividade política, em Portugal generalizada na gestão autárquica e não só, é o aproveitamento da ansiosa fome de obra que as populações cada vez mais têm.
Cada governante que chega começa por demonstrar que é capaz de fazer mais do que o anterior; depois “demonstra” com isso que é capaz de fazer muito; e finalmente induz a concluir-se que fez tudo muito bem.
O sistema tem funcionado na maravilha: o político alardeia “eu faço obra!” e os apoiantes, imbuídos da mesma codícia, batem palmas e agradecem: “que a obra continue!”. Espalham-se pela cidade tapumes, barreiras e avisadores luminosos – e deixa-se a propaganda a marinar.
Assim se mostram obras. Valha a verdade, que assim as obras vão sendo feitas. Inauguram-se as obras e vê-se como são úteis o pavilhão desportivo, a piscina olímpica ou a biblioteca local. A obra fica e saúda-se – e saúda-se mais porque vale um milhão, e ainda mais porque se fez com 50% que se foram buscar a fundo perdido.
Mas um dia há quem faça perguntas. O cidadão observa as obras feitas, uma a uma – e faz as contas:
A obra que vale um milhão e teve 50% a fundo perdido, para ser feita, foi posta a concurso. E a par de meia dúzia de empreiteiros que concorrem por milhão-e-meio, surge uma empresa que orçamenta apenas um milhão – empresa amiga, bem se vê. E a empresa amiga ganha o concurso e faz a obra. Está visto que no decurso da obra sempre há uns imponderáveis, e o contrato de empreitada tem uma cláusula a prever os trabalhos-a-mais…(sim, que amigos amigos negócios à parte.
E a empresa amiga cumpre os trabalhos a mais e recebe os “justos” dois milhões.
E fica feita a obra que vale um milhão.
Cada governante que chega começa por demonstrar que é capaz de fazer mais do que o anterior; depois “demonstra” com isso que é capaz de fazer muito; e finalmente induz a concluir-se que fez tudo muito bem.
O sistema tem funcionado na maravilha: o político alardeia “eu faço obra!” e os apoiantes, imbuídos da mesma codícia, batem palmas e agradecem: “que a obra continue!”. Espalham-se pela cidade tapumes, barreiras e avisadores luminosos – e deixa-se a propaganda a marinar.
Assim se mostram obras. Valha a verdade, que assim as obras vão sendo feitas. Inauguram-se as obras e vê-se como são úteis o pavilhão desportivo, a piscina olímpica ou a biblioteca local. A obra fica e saúda-se – e saúda-se mais porque vale um milhão, e ainda mais porque se fez com 50% que se foram buscar a fundo perdido.
Mas um dia há quem faça perguntas. O cidadão observa as obras feitas, uma a uma – e faz as contas:
A obra que vale um milhão e teve 50% a fundo perdido, para ser feita, foi posta a concurso. E a par de meia dúzia de empreiteiros que concorrem por milhão-e-meio, surge uma empresa que orçamenta apenas um milhão – empresa amiga, bem se vê. E a empresa amiga ganha o concurso e faz a obra. Está visto que no decurso da obra sempre há uns imponderáveis, e o contrato de empreitada tem uma cláusula a prever os trabalhos-a-mais…(sim, que amigos amigos negócios à parte.
E a empresa amiga cumpre os trabalhos a mais e recebe os “justos” dois milhões.
E fica feita a obra que vale um milhão.
E um dia há quem diga que a obra tem duas maneiras de se contabilizar:
A primeira é a daqueles que simplesmente exibem a obra feita com os 50% a fundo perdido: Dizem que se fez muito e bem.
A segunda é a dos que questionam se os fundos perdidos não deviam ser fundos criteriosamente aplicados – isto é, aproveitados. E enxergam que se fez muito, mas mal.
A diferença é, além do mais, económica: se para uma obra que vale 100 foram pagos 150, não foram 100 que se ganharam – foram 50 que se perderam. Mais rigorosamente dito, foi uma obra de valor 50 que ficou por fazer.
Ah! e mais um "pormenor": Do custo de 150, os fundos perdidos pagaram 75... os outros 75 foram buscar-se à banca. E a parcela acumula a muitas outras parcelas, de muitas outras obras. E ficam feitas muitas dívidas.
Mas há outra diferença:
O cidadão que observa com mais atenção alcança que a obra que vale um milhão e custou dois milhões foi executada pelo mesmo empreiteiro que executou uma outra obra que valeu um milhão e custou dois milhões. E como essas obras, outras obras foram feitas pelo mesmo empreiteiro. E outras e outras – e todas as obras são sempre feitas pelos mesmos. Todas as que valem um milhão e custam dois milhões. Todas as obras cujo duplicado custo impede que se tivessem feito outras tantas – que ficaram por fazer.
A questão já não é só económica. É ética.
Mas há outra diferença:
O cidadão que observa com mais atenção alcança que a obra que vale um milhão e custou dois milhões foi executada pelo mesmo empreiteiro que executou uma outra obra que valeu um milhão e custou dois milhões. E como essas obras, outras obras foram feitas pelo mesmo empreiteiro. E outras e outras – e todas as obras são sempre feitas pelos mesmos. Todas as que valem um milhão e custam dois milhões. Todas as obras cujo duplicado custo impede que se tivessem feito outras tantas – que ficaram por fazer.
A questão já não é só económica. É ética.
Mas o que é a ética? As obras não se fazem de ética – fazem-se de cimento e asfalto. Cimento, asfalto, obra “viva” – é o que se mostra na hora de prestar contas, que é como quem diz na hora de pedir (mais) votos.
E assim se vai andando. Enaltecendo a obra que se vê. Ignorando o que na obra se não vê.
E assim se subalterniza a exigência do fazer bem, com o sucesso fácil do fazer muito. E assim se faz vingar a regra da política à brasileira, exortando-se o Povo a pensar: “estes são melhores... roubam mas fazem obra”.
E assim eles vão andando.