quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz
O Negócio dos Parquímetros
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Um abaixo-assinado dirigido a um órgão de poder local merece sempre atenção – porque quem se queixa é porque lhe dói e nenhum patamar de poder está tão vinculado a cuidar das dores do cidadão como a autarquia. Mas não é só por isso que o abaixo-assinado que circula pelo Fundão contestando os parquímetros é uma boa razão para o Presidente Manuel Frexes reflectir.

Os subscritores do abaixo-assinado não vituperam, nem insultam, nem ameaçam boicote – apelam aos órgãos do poder municipal. Apelam para o que pensam e fundamentam ser o bom senso e, fazendo-o assim, apenas cumprem o mais elementar direito-dever de cidadania: o de suscitar a reflexão colectiva e a construtiva discussão da res publica. Só por isso, é bem vinda a discussão, que é dela que nasce a luz.

O problema é que nesta questão ainda não nasceu luz, para não dizer que não chegou a haver discussão. Na última reunião da Assembleia Municipal, o jovem assembléu socialista Vitor Cunha quis suscitar o debate – pela certa achando que era para isso que lá estava – e foi contra-atacado, massacrado e humilhado pelo habitual coro de hossanas à executiva maioria. Coisa triste. Triste, não tanto porque as ideias de um autarca eleito foram aprioristicamente descartadas sem o respeito dos que foram tão eleitos como ele para cumprir a missão que é discutir a vida colectiva, nem tanto porque não teve a seu lado uma bancada que o defendesse enquanto leader de uma legítima força de opinião. Triste, sobretudo, porque o escarninho coro e o impávido silêncio foram uma – mais uma – clara manifestação da alergia à crítica e da frigidez pelo debate que infectam a nossa vida cívica. A infecção alastra, com a perspectiva de que o confronto de ideias se trata não como uma energia a precisar de injecção de vitaminas mas como uma maleita a combater com generalização de vacina.

A verdade é que a opção municipal pelo estacionamento pago não é boa notícia. O Fundão não tem trânsito congestionado, nem população sobreconcentrada, nem falta de espaço para que os cidadãos utilizem e estacionem os automóveis quando precisam de os utilizar. Bem pelo contrário, o único parque de estacionamento construído pelo Município no centro da cidade tem estado às moscas, pela mesma razão que o único parqueamento privado que anteriormente existia (no shoping “Acrópole”) teve de ser abandonado pelo promotor, porque não rendia sequer para pagar ao porteiro. Lugares de estacionamento, portanto, tem a cidade a mais – não a menos.

Sem excesso de automóveis, sem folga de bolsa para o luxo de estacionar pagando, os fundanenses vão agora ser contemplados com uma nova restrição à comodidade de transitar pela cidade. Para o comércio (principal actividade da cidade) o resultado vai ser, ninguém duvide, o maior afluxo aos hipermercados, onde estacionar à porta e carregar à vontade é gratuito e bem vindo. Para o trânsito pedonal, de nada adiantará substituir espaço automóvel gratuito por espaço automóvel pago. E a verdade é que zonas pedonais não têm sido grande preocupação no centro da cidade – até a única que existe, na Praça do Município, é sistematicamente violada pela poluição automóvel, as mais das vezes por quem tinha maior dever de a preservar.

Podia a decisão do parque-pago ter razões económicas. Mas não: por todos os parqueamentos, o Município vai receber do concessionário privado uma renda mensal de 1.250 euros, mas cada lugar (um só) custará ao munícipe mais de 250 euros mensais. Como até o Senhor de La Palisse diria, fazer boa gestão é conseguir muito proveito com poucos custos…

Com tal desastre à vista, o problema merece revisão. Enquanto é tempo de se poupar o munícipe a este encargo injusto e a cidade a esta transfiguração inútil e contraproducente. Não me admira que a concessão já esteja contratada, mas os contratos iníquos desfazem-se – se o interlocutor estiver de boa fé, é fácil rescindi-los; se não estiver, é fácil anulá-los. Neste caso e com os números que se sabem, o custo de uma rescisão é mínimo. E alguém tem dúvidas de que aqueles que na Assembleia Municipal bateram palmas ao negócio batê-las-iam na mesma se o Dr. Frexes propusesse a rescisão?

Uma revisão assim ponderada não invalida – só reforça – o bom princípio de dotar a cidade de um grande parque para estacionamento – gratuito.

Errar é humano – mas persistir num erro para que houve atempado alerta é indesculpável. A Manuel Frexes está devolvido o ónus da reflexão, que neste episódico assunto bem pode ser o sinal de que no Fundão continua a haver lugar para o debate da vida colectiva, única e verdadeira alma de uma comunidade. Para que o Fundão não seja reduzido ao destino, tão em moda, dos burgos que crescem no espavento dos andaimes entermeado com o deserto das ideias. Assim como a prostituta que ganha adornos no corpo à custa de perder a própria alma.