Louçã, brilhante
.
O debate é uma árvore que tem por raiz o pensamento, por tronco a palavra e por função dar sentido à floresta que é a democracia.
.
Mas o confronto de ideias é hoje desprezado, detestado e arredado das práticas dos poderes - os políticos e os demais - de cujo autismo se tornou mesmo um inimigo.
.
Lembramo-nos da qualidade do debate que fez da nossa nação uma pátria de excepção, pela pena e pela voz de um Eça ou de um Ramalho - e temos saudades de uma boa discussão. Que falta faz, no nosso tempo, quem use a palavra, a argúcia, o humor e até a irreverência como armas ao serviço da cultura e do espectáculo que sempre é a lucidez!
.
Na semana passada, o parlamento assistu a uma episódica mostra de inteligência que, pela forma das ideias e pelo conteúdo das palavras, fez lembrar aquela espécie em vias de extinção que é o debate arguto, sarcástico, vivo. Refiro-me à intervenção de Francisco Louçã a propósito das estatísticas de desemprego apresentadas pelo Primeiro-Ministro Sócrates. O deputado bloquista poliu com o luzente brilho da palavra a comparação das curvas do gráfico estatístico com as bossas de um camelo.
.
Quem ouviu, gostou. E quem gostou não terá resistido a imaginar um dize-tu-direi-eu entre Sócrates e Louçã, à moda do tempo das "Farpas", que bem poderia ter ficado no Diário da Assembleia da República exarado mais ou menos assim:
.
Após o Senhor Primeiro-Ministro ter manifestado o seu regozijo pela curva descendente que se observa no gráfico do desemprego, pediu a palavra o Senhor Deputado Francisco Louçã, que no uso dela disse:
.
" O Senhor Primeiro-Ministro fala de uma curva descendente, referindo-se a um restrito período de tempo que seleccionou à lupa. Mas, para se ser objectivo e preciso, há que dizer que ao longo destes dois anos a evolução do desemprego não se mostra por uma simples curva, mas por uma sucessão de curvas, como bem já aqui demonstrou a minha camarada Ana Drago. Olhando o gráfico, vemos essas sucessão de curvas, formando duas bossas - é como se víssemos o dorso de um camelo, com as duas bossas bem visíveis. O Senhor Primeiro Ministro pode querer habilmente alisar o dorso do animal, como se fosse uma mula. Mas não deixa de ser um camelo!"
.
A esta intervenção respondeu o Senhor Primeiro Ministro, que afirmou:
.
"O Senhor Deputado Francisco Louçã fala do desemprego com jocosas figuras de estilo e todos nós vimos onde chega com as suas bossas de camelo e a sua semelhança com uma mula. Não tenho nada contra as figuras de estilo nem me aflige a sua quadrúpede comparação - e fique descansado que, por muito perfeitas que sejam as curvas da sua camarada Ana Drago, não é a mula que me preocupo em mostrar aos portugueses. O que eu tenho para mostrar aos portugueses é este conjunto de políticas de emprego, enquanto instrumento sério de desenvolvimento, este conjunto de medidas que assumo como minhas com muito orgulho. Este meu instrumento e estas minhas medidas são o que devia preocupar-vos - o Senhor devia ser o primeiro a agarrar neste meu instrumento e a Senhora Deputada Ana Drago, em vez de se preocupar com as linhas das suas belas curvas, devia apreciar este meu instrumento e entusiarmar-se com as minhas medidas. O Senhor fala de bossas e de figuras de estilo. Pois eu digo-lhe, olhos nos olhos, a si: Admito que é um camelo! Mas garanto que vou endireitar-lhe as bossas!"
.
E nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a sessão.
.
*crónica escrita para o programa "Um Dia Com...", na R.C.B., a 5.Mar.2007
.
O debate é uma árvore que tem por raiz o pensamento, por tronco a palavra e por função dar sentido à floresta que é a democracia.
.
Mas o confronto de ideias é hoje desprezado, detestado e arredado das práticas dos poderes - os políticos e os demais - de cujo autismo se tornou mesmo um inimigo.
.
Lembramo-nos da qualidade do debate que fez da nossa nação uma pátria de excepção, pela pena e pela voz de um Eça ou de um Ramalho - e temos saudades de uma boa discussão. Que falta faz, no nosso tempo, quem use a palavra, a argúcia, o humor e até a irreverência como armas ao serviço da cultura e do espectáculo que sempre é a lucidez!
.
Na semana passada, o parlamento assistu a uma episódica mostra de inteligência que, pela forma das ideias e pelo conteúdo das palavras, fez lembrar aquela espécie em vias de extinção que é o debate arguto, sarcástico, vivo. Refiro-me à intervenção de Francisco Louçã a propósito das estatísticas de desemprego apresentadas pelo Primeiro-Ministro Sócrates. O deputado bloquista poliu com o luzente brilho da palavra a comparação das curvas do gráfico estatístico com as bossas de um camelo.
.
Quem ouviu, gostou. E quem gostou não terá resistido a imaginar um dize-tu-direi-eu entre Sócrates e Louçã, à moda do tempo das "Farpas", que bem poderia ter ficado no Diário da Assembleia da República exarado mais ou menos assim:.
Após o Senhor Primeiro-Ministro ter manifestado o seu regozijo pela curva descendente que se observa no gráfico do desemprego, pediu a palavra o Senhor Deputado Francisco Louçã, que no uso dela disse:
.
" O Senhor Primeiro-Ministro fala de uma curva descendente, referindo-se a um restrito período de tempo que seleccionou à lupa. Mas, para se ser objectivo e preciso, há que dizer que ao longo destes dois anos a evolução do desemprego não se mostra por uma simples curva, mas por uma sucessão de curvas, como bem já aqui demonstrou a minha camarada Ana Drago. Olhando o gráfico, vemos essas sucessão de curvas, formando duas bossas - é como se víssemos o dorso de um camelo, com as duas bossas bem visíveis. O Senhor Primeiro Ministro pode querer habilmente alisar o dorso do animal, como se fosse uma mula. Mas não deixa de ser um camelo!".
A esta intervenção respondeu o Senhor Primeiro Ministro, que afirmou:
.

"O Senhor Deputado Francisco Louçã fala do desemprego com jocosas figuras de estilo e todos nós vimos onde chega com as suas bossas de camelo e a sua semelhança com uma mula. Não tenho nada contra as figuras de estilo nem me aflige a sua quadrúpede comparação - e fique descansado que, por muito perfeitas que sejam as curvas da sua camarada Ana Drago, não é a mula que me preocupo em mostrar aos portugueses. O que eu tenho para mostrar aos portugueses é este conjunto de políticas de emprego, enquanto instrumento sério de desenvolvimento, este conjunto de medidas que assumo como minhas com muito orgulho. Este meu instrumento e estas minhas medidas são o que devia preocupar-vos - o Senhor devia ser o primeiro a agarrar neste meu instrumento e a Senhora Deputada Ana Drago, em vez de se preocupar com as linhas das suas belas curvas, devia apreciar este meu instrumento e entusiarmar-se com as minhas medidas. O Senhor fala de bossas e de figuras de estilo. Pois eu digo-lhe, olhos nos olhos, a si: Admito que é um camelo! Mas garanto que vou endireitar-lhe as bossas!"
.
E nada mais havendo a tratar, deu-se por encerrada a sessão.
.
*crónica escrita para o programa "Um Dia Com...", na R.C.B., a 5.Mar.2007