quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

A 23 ( nº 0 )

Ferramentas de Progresso

Ivan, imigrante com visto e residência em Portugal havia mais de um ano, foi um dia chamado pelo engenheiro que chefiava a brigada de avarias graves num qualquer campo da Cova da Beira. Não seria a primeira vez que o engenheiro o mandava descer do alto do poste eléctrico para conferenciarem em terra, mas aos circunstantes não passou despercebida a discreção com que, após ouvir atentamente o aturado relato da situação por que o chamavam ali, Ivan pediu licença para usar o bloco de papel quadriculado. Fez contas e esquemas e perguntas e pediu ao chefe da brigada que solicitasse da central respostas para duas ou três informações que se lhe sugeriam. Já os operários seus colegas tinham recolhido ao Land Rover da companhia e o olhar do engenheiro se tinha desligado dali quando Ivan informou a central que o caso não era de avaria na rede de distribuição eléctrica, mas de deficiente programação da central. Com a devida vénia, pediu que se ensaiasse a reprogramação do complexo servidor central e ele próprio ditou, pelo telemóvel, os passos técnicos a cumprir. O sistema ficou a funcionar na perfeição – e cessaram as reclamações de avaria em toda a região. Ivan regressou naturalmente ao seu posto de servente. Para os outros – companheiros de trabalho, superiores hierárquicos, administradores da empresa e consumidores – o aperfeiçoamento da importante infraestrutura que naquele dia se conseguiu passou despercebido. Só Ivan desfrutou da satisfação de ter aplicado os avançados estudos do curso de engenharia que fizera na Ucrânia. Na hora seguinte continuava a ser o mesmo operário com salário mínimo. Nos arquivos de recursos humanos da grande empresa portuguesa, o rico currículo do engenheiro ucraniano continuava a ser tão desnecessário como no dia em que se inscrevera para trabalhar como operário.
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Tamara, cidadã russa, chegou à Beira Interior em 1995, com uma mala cheia de referências profissionais: doutora em música e piano, directora de uma notável companhia estatal russa, vice-reitora de uma escola superior com resultados reconhecidos em todo o mundo. Adoptou Portugal e o Fundão como residência por opção de gosto. Ofereceu-se para trabalhar na sua área e aceitou integrar-se numa pequena escola de música ainda em génese, para cuidar da primeira formação de crianças e jovens amadores de piano. Aceitou salário baixo, assumiu horários de tempo inteiro e horas extraordinárias, ensinou alunos de todos os níveis, dedicou aos mais dotados horas sem conta do seu tempo de lazer, propôs a chamada de outras professoras suas compatriotas, com a adopção de idênticos métodos de trabalho. Dez anos depois, a escola cobria um universo de mais de 500 alunos e conseguia um núcleo de mais de 20 jovens a serem sistematicamente premiados em concursos nacionais e estrangeiros, a darem recitais nas melhores salas do país, a serem na comunicação social da especialidade mais destacados do que os de todas as escolas portuguesas. Por estranha ironia, foi nessa época que a escola de Tamara se confrontou com a falta de apoio público para o crescimento que lhe é indispensável – e para cúmulo do assombro, tudo isso se evidenciou quando a pequena cidade em que a escola tem sede começava a sentir o desespero da estagnação por falta de um grande projecto de notoriedade regional e nacional.
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Stanislav trouxe da Sibéria o grau de cientista emérito e uma alta condecoração do governo do seu país, quando em 1993 a Casa Real de Bourbon visitou a Cidade Científica da Rússia e o convidou para ensinar numa universidade espanhola. Dois anos depois, conjugou a carreira de universitário com o gosto pelo vale da Gardunha e fixou residência no Fundão e sede de trabalho na Universidade da Beira Interior. O Departamento de Matemática da U.B.I. cresceu sob a sua direcção e 3 ou 4 anos mais tarde chegou a um nível que mereceu na avaliação europeia a classificação de "Excelente", contrastando com os dois outros departamentos da universidade que foram avaliados na mesma ocasião e que não foram além da classificação de "Fraco". Ao fim de dez anos de serviço, tinha publicado diversas obras que a comunidade científica mundial acompanhou e louvou, não obstante a sua firme decisão de as lançar em Portugal. No final desses dez anos, a U.B.I. dispensou-o, para assegurar trabalho a professores portugueses que corriam o risco de ficar no desemprego. A Universidade Complutense de Madrid, talvez a mais prestigiada e exigente universidade de Espanha, convidou-o de imediato. Ensina hoje em Madrid, apesar de teimar em manter no Fundão a família e a casa que aqui comprou.
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Os imigrantes Ivan, Tamara e Stanislav são apenas três casos, unidos por um traço comum: são cidadãos da Beira Interior vindos do leste europeu, numa época em que os seus países de origem, por razões várias, empurravam para a emigração pessoas com elevada (rara) qualificação. Mas esse traço liga-os a muitos outros casos semelhantes – e traduzem uma realidade que vai muito para além dos episódios que têm para contar. São exemplo de uma mais-valia de recursos produtivos preciosos num país que tarda a descobrir as reais e efectivas virtualidades do aproveitamento dos estrangeiros que acolhe, na via do salto de actualização tecnológica que por decreto se proclama indispensável, como no percurso para a melhoria da produtividade e da concorrência com as sociedades europeias em acelerado esforço de optimização dos seus recursos, como na procura da excelência de ofertas que é hoje o único caminho para a singularidade das cidades e das regiões no contexto nacional e europeu. Porque estes imigrantes não trazem só os níveis de qualificação que por cá escasseiam – encabeçam também métodos de trabalho, atitude na procura de objectivos, disciplina e rigor de organização individual e colectiva. Porque são, nisso mesmo, excelentes exemplos e práticas para os "campeões do improviso" que os portugueses são por ancestral idiossincrasia. Porque, no especial caso da Beira Interior e na específica realidade do eixo Castelo Branco – Guarda, a obtenção da excelência e a conquista da singularidade são hoje, mais do que objectivos, verdadeira necessidade do desenvolvimento económico e do progresso social. Porque a observação da realidade actual das quatro cidades deste eixo geográfico mostra que a Guarda tem a responsabilidade de evitar que a principal fronteira do país seja cada vez mais porta de entrada e menos porta de saída; que Castelo Branco não conseguirá, sem ferramentas idoneamente preparadas, dar continuidade à fisionomia de cidade industrialmente atractiva e estruturalmente moderna quando terminar o último mandato do insubstituível Joaquim Morão e crescer a tensão concorrencial de regiões menos periféricas; que a Covilhã não pode falhar na vital procura da ligação da sua universidade ao mundo prático da ciência e da inovação tecnológica; e que ao Fundão resta pouco mais do que apostar na quase alquímica afirmação de um centro de cultura-lazer-turismo por excelência, a que só terá acesso por obra de uma qualidade superlativa como a que a imigrante Tamara lhe ofereceu com uma genialidade que superou as regras do tempo e da falta de apoios mas não dispensa o reconhecimento e o aproveitamento dos seus excepcionais pressupostos de metodologia e de rigor.
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O desafio que a Beira Interior pode aceitar e ganhar, ou declinar e perder, é o de saber tornar-se numa região de excepção nas áreas em que pertence a um país de excepção. Porque tem as virtudes de um país excepcional na mitigação da xenofobia de fronteiras, em respeito de um humanismo nuclearmente integrante dos direitos naturais do cidadão global. Porque faz parte de um país também excepcional no indolente espírito de esbanjamento das oportunidades que se lhe oferecem. Porque, afinal, lhe compete agora, com mais instância do que nunca, perceber que o hospitaleiro acolhimento dos imigrantes de alta qualificação pode por estes ser agradecido com muito mais do que a simpatia com que se integram social e culturalmente. Sobretudo quando é manifesto que eles se dispõem generosa e quase incondicionalmente a retribuir muito mais do que recebem. Sobretudo quando é óbvio que a região e o país não podem dar-se ao luxo de prescindir desse "ouro". Como se de nada valessem tantos exemplos do progresso de grandes países num passado ainda recente.
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* minha participação no nº 0 da Revista A23 (Jun/Set.2006)