Santos de Casa
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Já me acanho de insistir no tema Academia de Música do Fundão. Porque sei como estas coisas, infelizmente, são. Desta vez ter-me-ia mesmo abstido de voltar ao JF a propósito, não fosse a lembrança de que sem o desassombro da crónica talvez ainda hoje estivéssemos à espera do Túnel da Gardunha ou do Regadio da Cova da Beira. Depois, há contas a prestar aos fundanenses – e descansa-me saber que são boas contas.
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Já me acanho de insistir no tema Academia de Música do Fundão. Porque sei como estas coisas, infelizmente, são. Desta vez ter-me-ia mesmo abstido de voltar ao JF a propósito, não fosse a lembrança de que sem o desassombro da crónica talvez ainda hoje estivéssemos à espera do Túnel da Gardunha ou do Regadio da Cova da Beira. Depois, há contas a prestar aos fundanenses – e descansa-me saber que são boas contas.
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Com os apoios e os desapoios que se sabem, a Academia levou os jovens pianistas à Polónia. Três jovens, duas professoras, gestão de meios verdadeiramente espartana; nada dos apoios e confortos que mereceram das suas terras todas as outras escolas que lá foram, apesar de disciplina e rigor de trabalho em nada inferiores aos dos demais – e no caso das professoras levado até ao sacrifício. Bonito de ver, embora a comitiva tivesse apenas associados dois anónimos cidadãos que acorreram do Fundão e, descansemos, não daqueles que viajam pelo erário municipal – estes foram em vez dele. Os miudos foram e triunfaram. Para a estatística fica o registo de que a Academia foi a escola mais premiada, Leonor Mendes foi a mais jovem laureada da categoria “A” de piano, só o Fundão conseguiu dois prémios na mesma categoria (Leonor e Benedita foram 2ª e 3ª numa prova em que os talentos espantaram), Tiago Mileu foi igual a si próprio e diferente de todos, com a distinção de ter sido o único concorrente convidado a assinar o livro de honra do patrono do concurso, depois de levar Chopin, Bach e Mozart a roçar o sublime ante um juri petrificado que o seleccionou como o melhor (2º prémio numa categoria sem atribuição de 1º). No final do concerto dos laureados, a imprensa cultural da capital polaca queria saber a que se deve o “milagre português”. O Fundão estava longe, mas na Antena 2 o Ritornello sublinhava, quase em cima da hora, o feito fundanense como acontecimento do dia.
Com os apoios e os desapoios que se sabem, a Academia levou os jovens pianistas à Polónia. Três jovens, duas professoras, gestão de meios verdadeiramente espartana; nada dos apoios e confortos que mereceram das suas terras todas as outras escolas que lá foram, apesar de disciplina e rigor de trabalho em nada inferiores aos dos demais – e no caso das professoras levado até ao sacrifício. Bonito de ver, embora a comitiva tivesse apenas associados dois anónimos cidadãos que acorreram do Fundão e, descansemos, não daqueles que viajam pelo erário municipal – estes foram em vez dele. Os miudos foram e triunfaram. Para a estatística fica o registo de que a Academia foi a escola mais premiada, Leonor Mendes foi a mais jovem laureada da categoria “A” de piano, só o Fundão conseguiu dois prémios na mesma categoria (Leonor e Benedita foram 2ª e 3ª numa prova em que os talentos espantaram), Tiago Mileu foi igual a si próprio e diferente de todos, com a distinção de ter sido o único concorrente convidado a assinar o livro de honra do patrono do concurso, depois de levar Chopin, Bach e Mozart a roçar o sublime ante um juri petrificado que o seleccionou como o melhor (2º prémio numa categoria sem atribuição de 1º). No final do concerto dos laureados, a imprensa cultural da capital polaca queria saber a que se deve o “milagre português”. O Fundão estava longe, mas na Antena 2 o Ritornello sublinhava, quase em cima da hora, o feito fundanense como acontecimento do dia.
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Mas da Polónia vieram outras lições e motivos de reflexão. Para isso, de resto, era imperioso ir-se lá e para isso se lá foi. Tiago, Benedita e Leonor tocaram em instrumentos de requinte técnico a que nunca tinham tido acesso; actuaram com honras de estado a que nunca tinham assistido; receberam o respeito de um ambiente mais exigente do que todos os anteriores – em suma, colheram o conforto da missão cumprida, com o testemunho de um palco que tem já memória de outros talentos da academia fundanense: parece que os nomes de Jorge Liberal e Ricardo Vicente ali ficaram gravados, parece que o perfume das mãos de Teresa Doutor ainda soa no pedestal do monumento a Chopin. Mas confrontaram-se com uma outra e mais dura realidade: a de que, lá fora, a promoção e o desenvolvimento dos talentos proliferam com outra facilidade, graças ao suporte de estruturas escolares e métodos pedagógicos que todo o mundo conhece mas só são aproveitados onde se tem a consciência da insubstituibilidade do apoio público; a de que lá fora o reconhecimento do mérito se casa com a valorização local e regional; a de que lá fora o Poder tira o chapéu aos agentes culturais com a mesma humildade que por cá os promotores da cultura são confinados a apresentarem-se de chapéu na mão ante o poder. Das escolas de ensino artístico integrado em que laboriosamente treinaram para as provas do concurso, das escolas de ensino artístico integrado que viram concorrer com o carinho dos seus autarcas, ressumou uma evidência que à chegada ao Fundão era tristeza para o talento de Tiago, Benedita e Leonor, e apreensão para as suas incansáveis professoras Tamara e Veta. No fundo, todos sabiam ou sentiam que lhes ficava para trás uma atmosfera em que a cultura é vista com a alegria do mais seguro investimento, no regresso a um mundo em que o poder a tolera com a contrariedade de um fastidioso fardo. E essa é que é a fria realidade – não há silenciosa hipocrisia, nem sibilina demagogia, nem foguetória propaganda que a consigam escamotear.
Mas da Polónia vieram outras lições e motivos de reflexão. Para isso, de resto, era imperioso ir-se lá e para isso se lá foi. Tiago, Benedita e Leonor tocaram em instrumentos de requinte técnico a que nunca tinham tido acesso; actuaram com honras de estado a que nunca tinham assistido; receberam o respeito de um ambiente mais exigente do que todos os anteriores – em suma, colheram o conforto da missão cumprida, com o testemunho de um palco que tem já memória de outros talentos da academia fundanense: parece que os nomes de Jorge Liberal e Ricardo Vicente ali ficaram gravados, parece que o perfume das mãos de Teresa Doutor ainda soa no pedestal do monumento a Chopin. Mas confrontaram-se com uma outra e mais dura realidade: a de que, lá fora, a promoção e o desenvolvimento dos talentos proliferam com outra facilidade, graças ao suporte de estruturas escolares e métodos pedagógicos que todo o mundo conhece mas só são aproveitados onde se tem a consciência da insubstituibilidade do apoio público; a de que lá fora o reconhecimento do mérito se casa com a valorização local e regional; a de que lá fora o Poder tira o chapéu aos agentes culturais com a mesma humildade que por cá os promotores da cultura são confinados a apresentarem-se de chapéu na mão ante o poder. Das escolas de ensino artístico integrado em que laboriosamente treinaram para as provas do concurso, das escolas de ensino artístico integrado que viram concorrer com o carinho dos seus autarcas, ressumou uma evidência que à chegada ao Fundão era tristeza para o talento de Tiago, Benedita e Leonor, e apreensão para as suas incansáveis professoras Tamara e Veta. No fundo, todos sabiam ou sentiam que lhes ficava para trás uma atmosfera em que a cultura é vista com a alegria do mais seguro investimento, no regresso a um mundo em que o poder a tolera com a contrariedade de um fastidioso fardo. E essa é que é a fria realidade – não há silenciosa hipocrisia, nem sibilina demagogia, nem foguetória propaganda que a consigam escamotear.
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Tiago, Benedita e Leonor, mais as suas professoras, fizeram o que lhes competia. O que já não lhes compete a eles é o discernimento de que ganhar concursos de piano não tem como principal utilidade ser competitivamente melhor que o concorrente – mas fazer do talento cultural uma ferramenta de promoção, um capital de prestígio, uma afirmação de excelência na criação de uma marca de qualidade; e no mundo de hoje só uma forte marca de qualidade é capaz de transformar as periferias em polos personalizados, pujantes e singulares. Conjecturo que só para isso se criam tão criteriosamente estes eventos. Afinal, para que os vencedores possam hastear as suas bandeiras. Aqueles que as têm e as sabem levantar.
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(publicado no JF de 8.Jun.2006)