quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

nem todo o ouro luz

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Um dos privilégios que a classe política ganhou com o manejo das técnicas do marketing foi a presunção de que a exibição de obra que se veja torna inquestionáveis os critérios de gestão do dinheiro público. Criar-se a ideia de que se faz muita coisa faz partir do princípio de que tudo se está a fazer muito bem, e quando se ganha a imagem de que tudo se faz bem arroga-se o direito de fazer o que se quer – e de não fazer o que se não quer. Talvez por isso, quando o Jornal do Fundão destacou, na primeira página e no “Elevador”, a recusa de apoio da Câmara do Fundão à viagem dos jovens pianistas da Academia de Música e Dança ao concurso internacional da Polónia (1.500 euros para três músicos participarem) podem alguns ter objectado que se tratava de simples e criteriosa administração dos dinheiros municipais. Mas não foi. Nem um nem o outro dos adjectivos assentam ao caso. Infelizmente.

Para quem sabe que a Academia de Música do Fundão tem levado os seus jovens músicos a conquistarem os melhores prémios que nas suas disciplinas se atribuem em Portugal e não só, a explicação da indiferença da Câmara Municipal tem de ser encontrada mais fundo. Levar o nome do Fundão tão longe, ter o exclusivo privilégio de representar o país com a forte probabilidade de o fazer para disputar os primeiros prémios de piano na pátria de Chopin, suscita inevitavelmente a questão de saber se tudo isso (e mais) vale ou não o preço da viagem. E induz uma resposta intuitiva: depende da perspectiva. Depende do que se entenda por custo da viagem.

Para o que o pelouro da Cultura tem anunciado propor-se, para o que a Câmara do Fundão tem prometido, o entendimento da relação custos-benefícios tinha de assentar sobre premissas diferentes do seco fundamento da “falta de verbas”. É que facilmente se acredita que viajar ao leste europeu custe caro, mas já custa a crer que ao Município seja menos caro levar três jovens pianistas a consagrarem o Fundão na capital polaca do que deslocar a uma desconhecida cidade dos confins do leste um séquito de autarcas como o que a Câmara patrocinou ainda não há muito – e quando ainda estamos para saber o que ganhou o Fundão com isso. Patrocinar a missão dos pianistas fundanenses pode ser visto como fraca embaixada, mas custa a crer que melhores tenham sido os embaixadores que o Município recentemente mandou a Cabo Verde, para geminar o Fundão com o Tarrafal e fomentar a cooperação empresarial entre as duas cidades – quando não se conhecem ainda casos de empresários cabo-verdianos a investirem no nosso concelho, nem de empresas fundanenses a prosperarem no Tarrafal, nem alguém acredita que algum dia isso venha a acontecer. Enfim, encontrar fundamentos para viabilizar a participação dos virtuosos alunos fundanenses no concurso internacional não custará certamente mais do que para financiar os autarcas do costume a participarem num encontro europeu que só por coincidência vai ter lugar num dos mais atractivos paises para se passear na Europa e precisamente na cidade que por lá constitui o principal destino turístico. Por mais que à Câmara custe admitir – e custa-nos a todos – não há-de faltar quem veja no critério de custos das viagens municipais semelhanças com o dos laboratórios farmacêuticos…

Mas o maior problema é que o desprezo autárquico pelo sucesso da Academia de Música e Dança do Fundão vai mais longe e mais fundo do que todas estas coisas “miúdas”. Porque tem sido um desprezo por um projecto que poderia ser âncora da singularidade do Fundão, por um ideário que já abrange mais de 500 beneficiários, por uma produtividade triunfadora que já dificilmente encontra paralelo em todo o país. Porque tem sido um desprezo pelo maior trunfo cultural de que o Fundão dispõe actualmente, porque é mais um travão à escola com mais viabilidade para trazer e fixar população na nossa terra, porque tudo isso é assim por força de prioridades que não têm sido discutidas mas têm muito de discutível, porque a estas razões acrescem outras não menos ponderosas – e porque, no cenário em que tudo isto acontece, já poucos podem falar destas coisas incómodas sem se sentirem incomodados.

Talvez seja tarde para que a Câmara Municipal emende a mão e patrocine a comparência dos jovens virtuosos no concurso internacional da Polónia. Mas, pelo que se conhece da relação da Academia com os fundanenses, é ainda de esperar que ao concurso falte o Município mas não o mérito dos munícipes. Oxalá isso – ao menos isso – incomode a consciência autárquica. Porque este tema há-de continuar a incomodá-la. Que disso não fiquem dúvidas.