
O tempo dá-nos normalmente não só serenidade mas também lucidez. Ao pensar na eleição de Cavaco Silva para Presidente da República, sinto que é isso que me acontece, à distância de uns dias apenas, e espero que lhe aconteça a ele mais ou menos imediatamente. Para que seja claro onde quero chegar, registe-se que nunca fui um admirador do professor agora eleito Presidente da República – por razões que são várias e de diversas ordens e que agora não vêm a esta crónica. Não fiquei contente com a sua candidatura a Belém (e confesso que nem tranquilo) e ao longo da campanha eleitoral, que acompanhei interessadamente mas com espírito de abertura – e, a propósito, não concordo com aqueles, muitos, que disseram que foi uma campanha fraca de ideias e de significado – só vi confirmada a convicção de que Cavaco é culturalmente limitado, ideologicamente confuso e politicamente rudimentar. Por isso, na noite eleitoral tive a esperança de que os meus próprios critérios de previsão estatística não falhassem e, ao desenharem-se os resultados dos distritos de Santarém e do Porto (habituais referências da média eleitoral nacional) pensei que haveria segunda volta e augurei a vitória histórica de uma candidatura presidencial assente na cidadania e nos valores profundos do patriotismo e da representação real dos mais directos destinatários das políticas que urgem ao futuro imediato. Feito o escrutínio, porém, foi a Cavaco Silva que coube dizer ao que se compromete perante todos os portugueses – os menos de três milhões que votaram nele e os mais de seis milhões que não votaram. E, honestamente, creio que ele o disse de forma acertada.
Nas primeiras posições públicas depois de eleito, Cavaco apareceu aos apoiantes que o saudavam liberto da companhia dos lideres partidários que sustentaram a sua campanha e proclamou a vontade de não haver derrotados. Ver-se-ia nisso só o ritual de circunstância se não tivesse sido integrado por um discurso em que o presidente eleito jurou compromissos que durante a campanha podiam ser tomados como apelo ao voto apenas. Jurou compreender que os maiores problemas do Portugal de hoje são a pobreza e a desigualdade de sorte entre uma população imensa, e o injusto aproveitamento da res publica por uma classe política cada vez mais embotada ética e qualitativamente. Jurou querer ajudar a clarificar que aquilo que distingue as boas políticas das más políticas é, tal como defendeu Garcia Pereira, que são boas as políticas que defendem e criam emprego e são más as políticas que destroem e desprotegem o emprego. Jurou dissolvidos os lobbies e séquitos que na campanha quiseram, mitificando-o, freneticamente entronizar o neoliberalismo oligárquico que de facto já nos governa arrogantemente. Jurou, a final e por tudo o resto, entender e fazer entender a democracia como algo (muito) mais que a alternância do poder: como um código moral de condutas. E este compromisso, a que o novo presidente fica tão mais vinculado quanto é certo que o anunciara em campanha e por isso lhe serviu determinantemente para ser eleito, não é coisa de somenos, não poderá ele esquecê-lo nem o esquecerão os portugueses e a História.
Assente que parece estar o conteúdo essencial das competências do Presidente da República, Cavaco Silva jurará a 9 de Março defender e fazer respeitar a Constituição, em ordem à estabilidade e ao progresso do país e em vista dos primordiais objectivos da liberdade, da justiça e da igualdade para todos os portugueses. De um homem que nasceu do povo e cresceu com trabalho próprio, é de esperar que chegado ao topo da pirâmide da responsabilidade nacional queira deixar o seu nome de bem com a História. E está a tempo de o assinar, pelas páginas da Esperança dos seus compatriotas, pelas linhas do código ético que já jurou adoptar. É que o insucesso a que os destinos nacionais chegaram deve-se, muito mais do que à ineficiência de obsessões tecnocráticas como os défices das finanças, ao lodo moral que cobre o país por cima. E Cavaco Silva pode agora dar significado real ao distanciamento que adoptou perante os seus correligionários no período mais negro do santanismo e à indiferença que quis manter perante o caciquismo dos que quiseram tirar partido da sua candidatura à presidência – e pode fazê-lo de modo que por certo não agradará nem ao maioritário governo nem à oposição maioritária vigentes, mas conformará o exercício do mandato presidencial com os mais puros desígnios nacionais: vetando não só o carreirismo parasitário do poder mas também a voragem dos lobbies que fazem dos políticos marionetas; dando voz à indignação da população civil ante a vergonha da partilha do bolo que cada vez mais nas altas esferas se cozinha à custa das migalhas roubadas à arraia-miúda; apontando como exemplo a denúncia das políticas que ignoram friamente a economia ao serviço de cidadãos com rosto para melhor encapotarem o destino dos números da ditadura das finanças.
É esta ética com real proveito social que se impõe à nova magistratura presidencial – e foi com ela que Cavaco Silva já declarou comprometer-se. Estará à vontade para a afirmar agora, na coexistência com um governo oriundo de uma área política que não é a sua; e ficará, com isso, igualmente autorizado a prossegui-la quando, pela inelutável permuta das cadeiras do poder no bloco central, se instalarem em São Bento aqueles que não hão-de deixar de lhe protestar maior proximidade ideológica.
É pela oportunidade que se lhe depara e pelo compromisso que já assumiu que, mesmo para quem gostaria de ver em Belém uma cultura mais garantidamente humanista e uma sensibilidade mais solidamente social, a atitude moral de Cavaco Silva ainda pode dar a esperança num país menos injusto e menos perdido do orgulho da sua própria memória. Apesar das semelhanças da sua figura com a de Salazar, que são inegáveis e imensas, Cavaco está a tempo de deixar para a História uma diferença essencial relativamente ao ditador do Estado Novo – de quem se diz que morreu pobre, rodeado de uns poucos muito ricos à custa de uma imensidão de muito pobres.
Nas primeiras posições públicas depois de eleito, Cavaco apareceu aos apoiantes que o saudavam liberto da companhia dos lideres partidários que sustentaram a sua campanha e proclamou a vontade de não haver derrotados. Ver-se-ia nisso só o ritual de circunstância se não tivesse sido integrado por um discurso em que o presidente eleito jurou compromissos que durante a campanha podiam ser tomados como apelo ao voto apenas. Jurou compreender que os maiores problemas do Portugal de hoje são a pobreza e a desigualdade de sorte entre uma população imensa, e o injusto aproveitamento da res publica por uma classe política cada vez mais embotada ética e qualitativamente. Jurou querer ajudar a clarificar que aquilo que distingue as boas políticas das más políticas é, tal como defendeu Garcia Pereira, que são boas as políticas que defendem e criam emprego e são más as políticas que destroem e desprotegem o emprego. Jurou dissolvidos os lobbies e séquitos que na campanha quiseram, mitificando-o, freneticamente entronizar o neoliberalismo oligárquico que de facto já nos governa arrogantemente. Jurou, a final e por tudo o resto, entender e fazer entender a democracia como algo (muito) mais que a alternância do poder: como um código moral de condutas. E este compromisso, a que o novo presidente fica tão mais vinculado quanto é certo que o anunciara em campanha e por isso lhe serviu determinantemente para ser eleito, não é coisa de somenos, não poderá ele esquecê-lo nem o esquecerão os portugueses e a História.
Assente que parece estar o conteúdo essencial das competências do Presidente da República, Cavaco Silva jurará a 9 de Março defender e fazer respeitar a Constituição, em ordem à estabilidade e ao progresso do país e em vista dos primordiais objectivos da liberdade, da justiça e da igualdade para todos os portugueses. De um homem que nasceu do povo e cresceu com trabalho próprio, é de esperar que chegado ao topo da pirâmide da responsabilidade nacional queira deixar o seu nome de bem com a História. E está a tempo de o assinar, pelas páginas da Esperança dos seus compatriotas, pelas linhas do código ético que já jurou adoptar. É que o insucesso a que os destinos nacionais chegaram deve-se, muito mais do que à ineficiência de obsessões tecnocráticas como os défices das finanças, ao lodo moral que cobre o país por cima. E Cavaco Silva pode agora dar significado real ao distanciamento que adoptou perante os seus correligionários no período mais negro do santanismo e à indiferença que quis manter perante o caciquismo dos que quiseram tirar partido da sua candidatura à presidência – e pode fazê-lo de modo que por certo não agradará nem ao maioritário governo nem à oposição maioritária vigentes, mas conformará o exercício do mandato presidencial com os mais puros desígnios nacionais: vetando não só o carreirismo parasitário do poder mas também a voragem dos lobbies que fazem dos políticos marionetas; dando voz à indignação da população civil ante a vergonha da partilha do bolo que cada vez mais nas altas esferas se cozinha à custa das migalhas roubadas à arraia-miúda; apontando como exemplo a denúncia das políticas que ignoram friamente a economia ao serviço de cidadãos com rosto para melhor encapotarem o destino dos números da ditadura das finanças.
É esta ética com real proveito social que se impõe à nova magistratura presidencial – e foi com ela que Cavaco Silva já declarou comprometer-se. Estará à vontade para a afirmar agora, na coexistência com um governo oriundo de uma área política que não é a sua; e ficará, com isso, igualmente autorizado a prossegui-la quando, pela inelutável permuta das cadeiras do poder no bloco central, se instalarem em São Bento aqueles que não hão-de deixar de lhe protestar maior proximidade ideológica.
É pela oportunidade que se lhe depara e pelo compromisso que já assumiu que, mesmo para quem gostaria de ver em Belém uma cultura mais garantidamente humanista e uma sensibilidade mais solidamente social, a atitude moral de Cavaco Silva ainda pode dar a esperança num país menos injusto e menos perdido do orgulho da sua própria memória. Apesar das semelhanças da sua figura com a de Salazar, que são inegáveis e imensas, Cavaco está a tempo de deixar para a História uma diferença essencial relativamente ao ditador do Estado Novo – de quem se diz que morreu pobre, rodeado de uns poucos muito ricos à custa de uma imensidão de muito pobres.