

.... A guerra está aí, todos os dias e sob muitas formas. Algumas delas começam a ser vislumbradas e denunciadas - como é o caso do sangrento morticínio que se repete nas estradas todos os dias.
.... Mas há outras formas - e mais insidiosas, endémicas e por isso mesmo mais eficazes também - de implicação da comunidade civil num permanente combate fratricida.
.... A Sociologia ensina que cada comunidade funciona segundo mecanismos de integração e de antagonismo - e são estes últimos que, quando atingem pontos de saturação, despoletam a situação de guerra. Ora, os fenómenos de antagonismo multiplicaram-se através dos tempos e, por sobre isso, crescem hoje também em qualidade e intensidade, que já não só em quantidade. Basta pensar-se na infinidade de "comodidades" que o capitalismo moderno oferece a um mercado composto de pessoas com cada vez menos capacidade para de modo realista as alcançarem. A imensa oferta de bens (e serviços) gera o apetite difícil de controlar, quando não novas "necessidades" impossíveis de satisfazer. Enquanto assim nasce a frustração, estimulam-se a comparação, a emulação, a competição - e despontam ao lado a inveja, o despeito e, no epílogo, a agressividade. E a agressividade, germinada neste terreno de cultura da luta por poder, facilmente se destila em agressão.
.... Muitos outros são os focos do antagonismo social. Veja-se, para se pensar só no principal, que a vida começa para qualquer cidadão pela procura e obtenção de emprego. Para conseguir emprego há que vencer concursos - e o concurso é uma refinadíssima fonte de antagonismo: cada opositor é um obstáculo (pior: mais um obstáculo) a interpor-se entre o sujeito e o seu objectivo. Adicionado a este "caldeiro de brasas" o lastro, cada vez mais inflamado, da cunha-afilhadismo, o que temos? Um regimento de favorecidos armados de arrogante impunidade, frente a frente com uma multidão de injustiçados tomados do único sentimento em que são livres: a revolta. Mistura explosiva.
.... Pois é: a vida moderna e as modernas formas de turvar a ética com a conveniência adubam a pulsão antagonista e nervosa que germina no género humano.
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.... Mas se o antagonismo brota naturalmente onde quer que um homem viva com outro homem (e precisamente por inerência da convivencia entre semelhantes mas diversos) a verdade é que o fenómeno do confronto é actualmente não só aproveitado e alimentado, mas mesmo potenciado e maximizado, por via de novas e perversas ideologias e técnicas de poder.
.... É este o caso da moderna indústria do futebol.
.... Nada de mais eficaz na gestação do antagonismo. Aqui, já a competição não se distribui por alvos múltiplos (como no trânsito das estradas ou no concurso para emprego) - concentra-se na mais radical das suas formas, o confronto bipolar. Com apenas duas forças em confronto, o que cada uma delas encontra no campo de batalha não é apenas um adversário, é o inimigo.
.... Juntam-lhe, depois, o estrondo das claques; e a expressão económica dos interesses envolvidos; e o poder que estes interesses atraem e geram e necessitam e desenvolvem; e a inter-influência do poder com o interesse económico; e a espiral dessa influência no fomento das claques; e a agudização do confronto pela visibilidade que lhe é dada pela comunicação social; e a potenciação dessa visibilidade pelo interesse que os negócios têm pela comunicação social; e vice-versa.
.... Finalmente, imagine-se (perspective-se) a mistura deste refinado campo de antagonismo que é o futebol com todas as derivadas das outras fontes de antagonismo: as frustrações do quotidiano, a revolta ante as injustiças impostas à vida e ao destino do indivíduo, a exponenciação da competição e da agressividade. Termina-se na imagem de um rectângulo de guerra aberto a receber dois exércitos em fúria, psicologicamente treinados e estimulados a agir sem dó nem piedade, socialmente estimulados a não deixar passar um erro ao opositor, cientificamente apetrechados para demonstrarem a sua razão até ao absoluto e, daí, a mais enfatizarem ainda o desvalor do adversário e o ódio que, por isso, ele lhes merece.
.... Pior de todos os problemas: a batalha não termina aos noventa minutos - começa nesse momento a reger-se pelas regras mais impla- cavelmente antagonizadoras. À saída do estádio recrudescem os motivos da disputa - e durante a semana esgrimem-se com acicate as vinganças. Depois da saída do estádio e durante toda a semana analiza-se, comenta-se, revê-se, insiste-se nas falhas, recalcitera-se a divergência - transformada numa obsessiva fúria. Justificam-se os insucessos revendo-se à lupa os pormenores (e os agumentos). Atiram-se as culpas para um bode expiatório que na fracção de segundo não foi capaz de ver o erro que todos os milhões de tele-espectadores comprovam através de sofisticadas tecnologias. Tomam-se os erros do juiz como deliberadas culpas de desonestidade. Pior que isso, verifica-se que muitas vezes a desonestidade existe mesmo. Pior ainda, ignora-se ou esconde-se que ela existe, quando convém. E, máximo dos máximos, os mesmos que compram a desonestidade hoje apressam-se amanhã a lamentar-se vítimas dela.
.... Tudo isto, num circo que tem na arena os privilegiados e nas bancadas os mártires. E são os da arena quem resolve apontar para cima ou para baixo o polegar e assim ditar a sorte dos que estão na bancada.
.... Tudo isto, por meio de exércitos que têm por mercenários os generais e por voluntários os peões. Tudo numa guerra em que a ética militar de "glória aos vencedores, honra aos vencidos" é arrogantemente substituída pela soberba dos vencedores contra o vexame dos vencidos.
.... À saída do estádio (como dentro dele) resta para dirimir os conflitos uma autoridade cada vez menos acreditada e capaz. E durante a semana restam para esquecer a conflitualidade compensações sociais cada vez menos sérias e justas. E de tudo resta, afinal, uma "comunidade" cada vez mais recheada de fontes de fúria e cada vez menos apetrechada para suster a ignição deste gigantesco barril de pólvora.
.... E tudo é codiciosamente manipulado por uma nova indústria bélica. Com muitos soldados, muitas drogas excitantes, muita propaganda, muito ódio, muito dinheiro, muito poder - e o mais berrante grito guerreiro até hoje inventado: Goooolo!