quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

leituras - Sepúlveda

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“A mulher não engravidava. Todos os meses recebia os seus sangues com odiosa pontualidade, e depois de cada período menstrual aumentava o isolamento.
– Nasceu erma – diziam algumas velhas.
– Eu vi-lhe os primeiros sangues. Traziam vermes mortos – garantia outra.
– Está morta por dentro. Para que serve uma mulher assim? – comentavam.
Antonio José Bolívar Proaño tentava consolá-la, e andavam de curandeiro em curandeiro, experimentando toda a espécie de ervas e unguentos para a fertilidade.
Tudo em vão. De mês para mês, mais a mulher se escondia num recanto da casa para receber o fluxo da desonra.
Decidiram abandonar a serra quando propuseram ao homem uma solução que o indignou.
– Pode ser que sejas tu que falhas. Tens que a deixar só nas festas de San Luis.Estavam a propor-lhe que a levasse aos festejos de Junho, obrigando-a a participar no baile e na grande bebedeira colectiva que começaria mal o prior se fosse embora. Então, todos continuariam a beber estendidos no chão da igreja, até que a aguardente de cana, a “pura” generosa saída dos engenhos, provocasse uma confusão de corpos ao abrigo da escuridão.
Antonio José Bolívar Proaño negou-se à possibilidade de ser pai de um filho de Carnaval.
(…)
Pouco antes das festividades de San Luis, reuniram os escassos pertences, fecharam a casa e empreenderam a viagem.”
(…)
"Dolores Encarnación del Santísimo Sacramento Estupiñan Otavalo não resistiu ao segundo ano e foi-se entre febres altíssimas, consumida até aos ossos pela malária.
Antonio José Bolívar Proaño compreendeu que não podia regressar ao povoado serrano. Os pobres perdoam tudo, menos o fracasso.
Era obrigado a ficar, a permanecer apenas acompanhado de recordações. Queria vingar-se daquela região maldita, daquele inferno verde que lhe arrebatara o amor e os sonhos. Sonhava com um grande fogo que convertesse a Amazónia inteira numa pira.
E, na sua impotência, descobriu que não conhecia suficientemente a floresta para poder odiá-la.
Aprendeu o idioma xuar participando com eles nas caçadas.
(…)
Ao cair da noite, se desejava estar sozinho, deitava-se debaixo de uma canoa, e se, pelo contrário, precisava de companhia, procurava os xuar.
(…)
Não era um deles e, portanto, não podia ter esposas. Mas era como um deles, de tal maneira que o xuar anfitrião, durante a estação das chuvas, lhe rogava que aceitasse uma das suas mulheres para maior orgulho da sua casta e da sua casa.
A mulher ofertada levava-o até à margem do rio. Aí, entoando anents, levava-o, enfeitava-o e perfumava-o, para depois regressar à choça e retouçar em cima de uma esteira, de pés para cima, suavemente amornados por uma fogueira, sem deixar em momento algum de entoar anents, poemas nasais que descreviam a beleza dos seus corpos e a alegria do prazer aumentado infinitamente pela magia da descrição.
Era o amor puro sem outro fim que o próprio amor. Sem posse e sem ciúme.
– Ninguém consegue atar um trovão e ninguém consegue apropriar-se dos céus do outro no momento do abandono.
Foi o que lhe explicou uma vez o compadre Nushiño."
(...)
"Sem parar de chorar, entregaram-lhe a melhor canoa. Sem parar de chorar, abraçaram-no, entregaram-lhe provisões e disseram-lhe que a partir daquele momento já não era bem-vindo. Poderia passar pelas aldeias xuar, mas não tinha o direito de ficar.
Os xuar empurraram a canoa e, depois, apagaram as suas pegadas da praia."
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(Luis Sepúlveda, O Velho que Lia Romances de Amor)