quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

A Corrupção do Lazer


"As maiores virtudes são as que são mais úteis para as outras pessoas"
(Aristóteles)


DESPORTO, CORRUPÇÃO DO LAZER?
O negócio e a política, perfeitos macho e fêmea, casaram primeiro. O casamento precisou de uma amante - e conquistou a comunicação social. A concupiescência despertou a necessidade de um namoro - e seduziu o desporto.
O negócio, macho e imperador, ditou as regras de um outro tempo: o consumo fez nascer necessidades sem limite; as facilidades da tecnologia geraram a voracidade; a concorrência degenerou em domínio; a solidariedade deu lugar ao individualismo; a legítima ambição tornou-se desenfreada cobiça. Desinteressado da construção através da cooperação, o mundo lançou-se na destruição através da guerra.
O desporto, forma mais universal e completa do lazer, foi tomado pelas regras do jogo.
O campo de jogos comunitário foi substituído pela indústria, com produtor e consumidor - ou melhor, de empresário para cliente. Às massas, foi desvalorizado o estatuto de praticante-desportista e estimulado o de adepto-clubista. O cliente do consumismo é cliente de desportismo - que é o jogo de uma só modalidade: o braço-de-ferro.
Carrega para os estádios as angústias e os nervos a que a vida o submete.
Do seu clube, não espera um bom jogo - exige uma esmagadora vitória.
Não aspira a que a sua equipa encontre no campo parceiros com quem faça um bom espectáculo - exaspera por que o seu plantel crie e explore fragilidades no adversário para mais facilmente o derrotar.
No estádio, ninguém goza com divertimento a confraternização do desporto - todos sofrem com raiva a guerra dos pontos. Uma guerra em que a glória dos vencedores é a desonra dos vencidos.
Afinal, tudo conforme a um tempo em que o Homem perdeu a ambição pelo que deve ser e se perde na fúria pelo que quer ter.
Tempo que se fez velho - podre de velho. Porque a cultura do "espírito são em corpo são" não está ainda emergente mas é já urgente.
Desporto é saúde, confraternização, valorização do espírito, campo em que a sã competição é simples instrumento de maior perfeição. Em que mais longe, mais alto e mais forte são objectivo do jogo e não dos jogadores.
É competir para fazer um bom jogo - mesmo que não haja vitória.
Aceitar que o anti-jogo não dá a vitória a ninguém - derrota o espectáculo. E desvirtua o Desporto.
Compreender que só o valor do nosso adversário dá mérito ao nosso triunfo. E vice-versa.
Desporto não é a obsessão do anti-jogo contra um inimigo - é a alegria do jogo com parceiros de outras cores. Não é a vanglória de uma maior classificação - é a fruição de um melhor espectáculo. Jogo que se faz sempre com e nunca contra.
O combate - o único combate - a travar é um novo braço-de-ferro: o do tempo podre com o Tempo Novo.