quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

A Democracia Aparente

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Esta democracia que construímos ou nos descontruiram confinou-se ao bloco central. O regime das alternativas tornou-se no sistema da alternância - alternância dentro do sistema, em que o principal inimigo passou a ser a alternativa ao sistema.
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De dentro do sistema proclama-se que "ter maioria não significa ter razão". Hipocritamente: a maioria é que detém a razão - a razão que, exibindo o resultado do último acto eleitoral, excomunga as razões que contra ela estejam. A maioria, escudada do calor do pensamento alheio pela frieza dos números eleitorais, é que governa - e governa arrogando-se a propriedade (exclusiva) da decisão, do pensamento e da razão.
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É assim que se governa o poder e é assim que se governa a oposição alternante ou alternancial. A razão do poder é a razão da maioria vencedora; a razão da oposição alternante é a razão da maioria dos vencidos - porque entre os governados-vencidos apenas conta a razão da maioria dos vencidos, que é, por inerência do sistema, a maioritária oposição alternante. Na oposição, como no poder, a razão oficial é a razão da força dos números. Pouco importam a razão dos números e (muito menos) a força da razão.
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E é assim que em Portugal há uma razão oficial: a razão da concordância de PS e PSD. Entre os dois partidos alternam a razão de se dispor e a razão de se opor. Entre os dois se repartem a razão de por e a razão de propor. Entre os dois se esgota a razão de supor. Os dois juntos - e não o estão tão pouco quanto isso - formam a razão do impor. Sempre que os dois convergem as razões de ambos, feitas numa só razão, tornam-se a razão única. A razão única da força dos números. Uma única e numérica razão que, por ser única e por ser unicamente numérica é, afinal, não mais que a razão da força.