quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

conto

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Os Dias da Vergonha
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Talvez ninguém de entre os vivos lhe soubesse outro nome ou sobrenome. Acudia por João, mas nem se pode dizer que fosse essa a sua graça, porque todos o conheciam por “Abêbera”.
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A alcunha, inspirada na designação de uma escura espécie botânica, já de si parecia ter algo que ver com a sorte do pobre homem. Mas era herdada dos antepassados, como todas as alcunhas que chegaram aos dias de hoje, sobrevivendo à era em que a individualidade das pessoas ia para além dos assentos do registo civil.
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Também a rua onde morava e tinha a sua oficina doméstica não era chamada pelo nome próprio. O Estado Novo baptizou-a de “Rua Marquês de Pombal”, mas nem os próprios moradores se desabituaram do velho topónimo: Rua dos Galegos. Na verdade, a viela que destoa no coração da cidade de hoje era, ainda há poucas décadas, uma rua estreita e sinuosamente definida por duas fiadas de casitas de cozinha térrea e quarto no sobrado, com traseiras em terras dadas ao baldio pelo alinhamento dos muros de dois ou três solares que faziam o termo da vila de então. De um lado e do outro da linha recta marcada em pedra a dois metros de altura havia oliveiras: bastas e alinhadas do lado de dentro dos quintais das mansões, fazendo linha de rectaguarda às laranjeiras mais à mão da criadagem e ao olfacto dos senhores; esparsas e descompassadas do lado de fora, aventadas à terra sobeja que se fez comunitário campo dos despejos dos residentes das casitas minúsculas – despejos das cozinhas e dos corpos que durante a noite desciam do sobrado a estrumar as árvores com o que milagrosamente restava das barrigas sempre incompletas. Eram refugiados da guerra de Espanha e vinham das aldeias pobres da Galiza. Para eles nasceu aquela rua que, indiferente à sua condição de quase escravos, ainda hoje parece querer lembrá-los.
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Na Rua dos Galegos tinha o "Abêbera" a sua casa – se é que a terminologia contemporânea ainda consente que se chame morada àquelas quatro paredes de alvenaria de pedra, argamassada com lama e palha e coberta por ralos mosaicos de telha mourisca a adornar as enferrujadas chapas fixas com meia dúzia de pedregulhos que as guardavam dos vendavais, mas não das invernias. Na frontaria, apoiados aos graves cunhais de granito que ninguém sabe como ali foram parar, uma dúzia de blocos de cimento sem reboco testemunhava as últimas obras de luta contra o inverno e a ruína da velha parede.
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Era baixa, pequena e cinzenta aquela casa. Mas não era triste o seu interior. Na cozinha, já então pavimentada a cimento afagado, havia uma mesa e a parte inferior de um aparador, que em tempos alguém rico deitara fora, e dois “mochos” comprados na feira. Tudo com bom aproveitamento do canto mais longe da porta e deixando livres uns bons dois terços do compartimento para a oficina do solitário sapateiro. O bastante para as ferramentas, as matérias-primas, o banco do artista e a arrumação do calçado dos fregueses. Estes não precisavam de passar a soleira da porta para entregarem os sapatos para conserto. E só por ali passavam para a encomenda, que o "Abêbera" fazia todas as entregas ao domicílio. A urgência acicatava-lhe a delicadeza – e o serviço de entrega ajudava a promover o negócio.
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Durante muitos anos foi um brioso oficial da sua arte. Meias-solas atrás de meias-solas, uns tacões para pregar ou uns pares de botas para cardar – e a vida ia rolando com a dignidade de quem tinha tudo o que lhe bastava. A bata de sarja profusamente remendada ajudava a preservar a figura do homem desempenado, de cabelo e bigode fartos, por fim já grisalhos mas sempre impecavelmente penteados, que com roupa pobre mas limpa levava os pares de sapatos dos clientes cuidadosamente embrulhados em papel de jornal, como que para reforçar o brilho-negro que meticulosamente lhes dava. Daquele aspecto geral de limpeza só destoavam as mãos – calosas e encardidas, que isso não deslustrava a sua arte, bem pelo contrário. Talvez por isso as estendesse timidamente, sempre que recebia a paga do seu serviço.
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A vizinhança não lhe sabia de família – se é que algum dia a tinha tido. Dissera um dia para alguém que a mulher o tinha abandonado enquanto novo. Houve até quem suspeitasse vir daí o único lastro que da História se lhe atribuía: constava que em tempos tinha estado preso em terras de muito longe, por homicídio.
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Da memória pública só se sabe que viveu solitário as primaveras e os invernos. Durante anos em que viveu como gente, mal o viam, fora do roteiro das casas dos fregueses e da taberna ao cair da noite. O resto do seu quotidiano parecia sagradamente guardado por dentro das quatro paredes da Rua dos Galegos, por detrás do olhar sóbrio e aparentemente imperturbável.
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Foram anos, um punhado bom de anos, de prosperidade. À exacta dimensão das vistas de João “Abêbera”.
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Mas vieram outros tempos. Tempos em que a globalização dos mercados e marketings e merchandisings e mil outras invenções de outro mundo tornaram o planeta demasiado pequeno para pátria de coexistência de chips e homens de alcunha; e a Natureza fraca para ao mesmo tempo alimentar a expansão dos técnicos de gestão macroeconómica e o estômago dos oficiais de arte própria.
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“Meias-solas” depressa soou a neologismo astuciosamente criado pelas técnicas promocionais de organizados mega-shoppings, para atrair às “reparações na hora” uma massa de gente de bolsa já exaurida pela voragem do “usar-e-deitar-fora”. A própria palavra “sapateiro” surgiu como novíssima forma de embelezar logotipos de estilistas vendedores da moda chique – ironicamente guindada aos píncaros à custa do conceito de fabrico manual e personalizado...
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Os modernos mecanismos sociais impuseram-se como um vórtice, em cujas profundezas foram engolidos a sovela, a graxa, os calos, o pão e a dignidade de João “Abêbera”. A Rua dos Galegos, cercada por modernos bairros de vivendas, foi afastada dos subúrbios em que proliferaram as grandes superfícies comerciais. A centralidade geográfica tornou a antiga viela muito distante dos locais em que se aparca o automóvel e numa só correria se arrebanha para os carrinhos-de-compras tudo o que os olhos do consumidor ditam como necessidade. Ir a pé a uma rua do interior da cidade passou a ser incómodo; dar essas passadas por umas simples meias-solas era muito dispendioso – demasiado oneroso.
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A própria solidão de João “Abêbera” passou a ser muito diferente: agora era só dele, do íntimo do seu coração, cada vez mais vazio, como que por compressão do espaço que lhe sobrava no estômago. A mesma figura vestida de pobreza lavada e penteada passava agora os dias no banco da praça de taxis do centro da cidade. Por ali passava mais quem desse esmola – e a antiga taberna dos seus suspiros crepusculares deixara de ter espaço para ele, inserida que fôra nos objectivos da “revitalização do centro histórico” da cidade.
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Desprovidas do encardido da graxa e das tintas, as mãos perderam a timidez e habituaram-se a estender-se aos transeuntes do roteiro do antigo sapateiro. Era apenas mais um entre muitos pares de mãos que na agitação da cidade perturbavam as consciências; na confusão de uma progressiva multidão de mendigos, dementes, desempregados excluídos pela idade, perdeu o nome em paga da libertação da alcunha. Mas continuava só, mais relegado à sua estranha intimidade. Talvez até sentisse nisso um resguardo da honra que tinha de reaprender a cada passagem dos olhares que, afanosos e distraídos, não chegavam a cruzar-se com a sua súplica.
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No banco de pedra do parque automóvel, albergado pela majestática árvore secular cujas dimensões ao mesmo tempo o apoucavam, granjeou um dia a amizade de uma consciência. Ali estacionava diariamente o carro do advogado com escritório logo ao lado. Naquele dia quis o Destino que o causídico demorasse a sair do automóvel uns quantos minutos – o suficiente para que João, na hesitação do “vou... não vou”, aproveitasse uma força do “vou” e se dirigisse a ele. Disse-lhe que tinha sido agredido, que queria queixar-se no Tribunal, que “o senhor doutor costuma ajudar os pobres” e que a indemnização que recebesse em juízo havia de dar ao menos para pagar os custos. A inesperada atenção do advogado deu-lhe ânimo para continuar – “Ainda hoje não comi ... e a reforma só vem para a semana; se o senhor doutor me pudesse emprestar cinco euros, o mais tardar no dia 10 já lhos ia levar ao escritório ... já não digo um cigarro, que nunca me faltou noutro tempo".
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O homem voltou a abrir a porta do automóvel, debruçou-se sobre o porta-luvas e retirou o maço de cigarros de reserva. “Fique com esse, que a mim só me faz mal; os cinco euros dá-mos quando tratarmos do processo”. Entrou no escritório com os olhos húmidos de revolta. Prometeu ao seu pensamento que deixaria de fumar – e é claro que nunca o cumpriu.
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No dia seguinte, à mesma hora, João “Abêbera” não estava sentado no banco da praça. Estava do outro lado da árvore, a afastar-se, num gesto que não deixou dúvidas ao advogado: o pobre homem não queria abusar – nem da generosidade do benemérito, nem da exposição pública da sua própria miséria. – “Há-de passar lá pelo meu escritório, para tratarmos do seu assunto”, disse-lhe o outro, logo a seguir aos bons dias que avançou com forçada displicência. A resposta foi forte: com os olhos rasos de lágrimas, João disse apenas: “A mãezinha do senhor doutor dá-me pão todos os dias”. O advogado respirou fundo, puxou da sobriedade que conseguiu e insistiu: “Passe por lá, quando quiser; olhe que os seus direitos só lhos dão se nos mexermos”. E deu-lhe um aperto de mão, como se fosse natural despedir-se assim do fugaz encontro.
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Nunca houve processo. Nem qualquer outro encontro na praça de taxis. O advogado estacionava ali o automóvel diariamente e a horas quase pendulares, mas não voltou a ver por ali o homem. Raramente entrava ou saía do parque sem deitar o olhar para o banco de pedra, mas ao "Abêbera" nunca mais o viu por lá. De vez em quando sobressaltava-o uma figura pelas redondezas, mas nem por uma vez conseguiu atalhar o rasto do vulto que se esvanecia.
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Passaram pelo menos dois verões e dois invernos e mais o princípio de outro verão. Ia Agosto pela meada quando soou a notícia: “Sabe quem morreu?... O Abêbera”. E vinham os pormenores biográficos habituais: era um desgraçado, um bêbado, pedia dinheiro emprestado a toda a gente, era violento ou mal-criado quando lhe negavam um "empréstimo", etc.. E lastimava-se o desenlace, com a compaixão típica de fecho da notícia.
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A Câmara Municipal tinha começado a expropriação das casas da Rua dos Galegos. A João “Abêbera” seria proporcionada habitação num dos prédios do único bairro social da cidade – mas os moradores ameaçavam resistir à instalação do antigo sapateiro, para defesa do sossego e da limpeza do lugar. A polémica não chegou a vias de facto: o “Abêbera” foi encontrado morto, já sem condição de dar incómodo ao hospital sequer. O odor pútrido e a aglomeração de varejeiras transbordaram pelas inúmeras fendas das paredes, alertaram a vizinhança e depressa chegaram às autoridades. Não foi ordenada autópsia.
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O advogado recebeu a notícia em casa da mãe. Uma das visitas da doente deu sinal da indignação pública: o prior não queria fazer o funeral. Pelo relato da mensageira soube que o “Abêbera” passava os seus dias no banco de pedra da praça dos taxis; desde havia anos e até uma semana antes de ser encontrado a dar pasto às varejeiras.
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A agência funerária forneceu dois acompanhantes ao padre. A Santa Casa da Misericórdia pagou o serviço.