quis fazer da vida uma viagem a todos os lugares - levando ouvidos e trazendo voz

Morreu um Actor



António Feio
(1954-2010)

Morreu o actor. Disso falam as notícias – disso falam hoje todos os atentos à cultura portuguesa. “Até sempre, lutador” – diz a maior parte dos amigos, colegas, admiradores. Sobre o actor, lutador no desafio de uma terrível e insidiosa doença, não saberia eu dizer nada mais sensível, mais eloquente, mais certeiro.
Eu recordo outra faceta do António Feio. Mais do que aquele “puto” da minha idade que foi meu parceiro no jogo de futebol em que os manos mais velhos – o dele e o meu – nos incluíram (por falta de quórum no estádio da então FNAT) no dia feriado. “Parceiros”, então, noutro sofrimento: o de sermos dois verbos de encher em campo, tal era a desproporção de idade e de músculos relativamente aos outros jogadores. Recordo mais do que o miúdo que se fez famoso nos palcos ante a minha redobrada atenção, porque era um actor que eu conhecia. Recordo mais que o jovem irreverente que ficou com o meu velhinho mini Honda 600 em segunda mão.
Recordo – e homenageio – mais que o primeiro miúdo que em Portugal foi verdadeiro actor infantil. Recordo mais que o exemplo de coragem que para o público se tornou, na luta contra a doença, a mesma doença que pouco tempo antes lhe tinha roubado a mana “Nica”. Recordo, acima de tudo, o anti-herói que este homem foi – discretamente.

Recordo o homem simples e bom que sofreu muito naquilo que mais faz sofrer qualquer homem: a sentencial doença e a visão da morte certa. Esse, o simples homem para quem o destino foi injusto, está agora em paz. Na injusta e contraditória paz – mas na paz da imortalidade daqueles para quem “morrer é apenas deixar de ser visto”.
A minha curvada vénia para todos estes personagens deste grande intérprete.
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