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05 Dezembro 2011

Um caso de trabalho escravo (para já...)

Quanto devem os portugueses à Cruz Vermelha? Não sei responder. Quanto devem os portugueses ao grupo SONAE, também não. Mas é fácil de saber que a Cruz Vermelha Portuguesa deve muito ao portentado de Belmiro de Azevedo. Parece óbvio, pelo menos.

Há uma semana ou duas, a administração do Hospital da Cruz Vermelha Portuguesa solicitou aos seus empregados uma generosa dádiva natalícia: que se voluntariassem para ajudar o pessoal auxiliar do Continente a embrulhar prendas de Natal. As prendas são muitas, os clientes do mega-mercado devem ser muitos mais (sem subsídios é difícil comprar fora das áreas comerciais 'barateiras') e pagar salários a quem faça os embrulhos deve ser uma despesona - para mais num país em que está instituído que salários são 'gorduras' a evitar e desemprego um 'bem' a promover. Feita a simpática sondagem no Hospital da CVP, não apareceram voluntários. Facto que não surpreende ninguém, mas agastou a administração da Cruz Vermelha. Nada de mais simples solução: as direções de pessoal do HCVP elaboraram as escalas de serviço dos seus funcionários, incluindo nas suas tarefas de cumprimento de horário os almejados turnos ou piquetes de auxílio ao Continente. É trabalho distribuído em escala de serviço – e, portanto, quem se recusar sujeita-se a sanções. De fora ficam apenas os médicos (o que se compreende, dado o melindre de se comparar uma profissão como a de médico com algo que é prestar serviço e dar generosamente de si...), apesar de outros profissionais, com o mesmo grau de formação dos doutores clínicos, não estarem dispensados de se integrarem no dito 'voluntariado' forçado.
Esta prática, já entusiasticamente instituída pelo governo do farsola, de "queres fazer trabalhos forçados ou preferes um processo disciplinar" pode ter sido o motivo do deslumbra-mento daquele ganapo-que-andava-de-vespa-e-agora-passeia-num-BM-topo-de-gama-à-conta-dos-tansos, que este domingo se saíu com um espetacular anúncio: Fomentar o voluntariado, "começando pelo Estado" e "implantando-o nas empresas".
Temos promessa de estadista, que o fedelho mostra querer prestar relevantes serviços aos donos, na inefável tarefa de rapidamente arrasar os salários e alcançar o sonhado binómio produção-desemprego!
Isto o que terá dito Paulo Portas, quiçá de fim-de-semana em Portugal, palpito eu.

Estejamos preparados, pois. Pode estar perto o dia em que nos ordenem que sejamos voluntários a assentar tijolo nas urbanizações do grupo Fantasia-BPN-Cavaco & Cia.
Mas sejamos mansos – teremos esse 'voluntariado' amenizado pelo ressuscitado Movimento Nacional Feminino e tolerância de ponto para as atividades da Mocidade Portuguesa ou de uma falange quaisquer. A bem da Nação.
  

Editorial


A vida observa-se
os olhos abrem-se

os néscios governam
os valores ignoram-se
a ética despreza-se
a prepotência impõe-se

os sensatos dispensam-se
os sábios ostracizam-se
as dúvidas evitam-se
as perguntas rechassam-se

os escrúpulos afrouxam
a vergonha perde-se

os lugares distribuem-se
o mérito subestima-se
os talentos desperdiçam-se
as desculpas inventam-se
as justificações forjam-se
os compadres entendem-se
os afilhados ajeitam-se
os oportunistas seduzem-se

os salários congelam-se
as avenças engordam-se
os iníquos vangloriam-se
a mentira proclama-se

os ministros favorecem
os deputados aproveitam
os autarcas enriquecem
e todos se corrompem

o protesto silencia-se
a oposição humilha-se
a denúncia abafa-se
a indignação persegue-se
a revolta arrasa-se

os interesses calam-se
os interessados compactuam
a promiscuidade instala-se
os cinzentos calam-se
os mansos conformam-se
os fracos rendem-se
os espertos vendem-se

a propaganda especializa-se
a fachada institui-se
as premissas baralham-se
os custos sonegam-se
os resultados inventam-se
a fraude aceita-se
a prosápia acata-se
o embuste decreta-se

os neófitos apressam-se
as influências traficam-se
os direitos usurpam-se
as obrigações incumprem-se
os bens empenham-se
as dívidas crescem
o passado salda-se
o presente liquida-se
o futuro hipoteca-se

os desiludidos demitem-se
a ambição descontrola-se
a vaidade desnorteia-se

os ávidos promovem-se
os ávidos ratificam-se
os ávidos aplaudem-se
os ávidos compensam-se
e recompensam-se

os ávidos rivalizam

os esbirros traem
os cúmplices desmarcam-se
os mandaretes desmacaram-nos
as línguas desprendem-se
e a marosca revela-se

os ombros encolhem-se
os injustiçados cansam-se
os honrados indignam-se
os corajosos revoltam-se
o escândalo rebenta
a barca abandona-se
as culpas assobiam-se
e a vida continua
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