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12 Dezembro 2011

Adeus, Europa!


Schuman e Monet (e Churchil ou Adenauer, e Kohl ou Miterrand, Mário Soares ou Lucas Pires) quiseram a Europa - sonhando-a todos e projetando-a, construindo-a, viabilizando-a ou promovendo-a. E era uma ideia racional e bela, forte e clara: um território uno de nações diversas, uma sociedade coesa de potencialidades complementares, uma economia solidária de ordens financeiras desiguais mas convergentes.
Primeiro e antes de tudo, uma comunidade económica. Objetivo maior e último, uma união política. Pressupostos de princípio, nas riquezas de níveis muito diversas à partida, a democracia de um só nível - o pleno.
Quiseram todos e todos estimularam os seus Povos e Nações a admirar e escolher um grande todo, que como todo era possível e valioso por força das especificidades de cada parte, que ao afirmar-se pelo todo valorizava as partes específicas e pela especificidade de cada uma delas. A indústria de Alemanha e Reino Unido, a agricultura de França e Espanha, o turismo de Portugal e Grécia, o mar de Holanda e Portugal - tudo se conjugaria (o verbo era mesmo este...!) numa União (e o substantivo era mesmo este!). Um território uno, em que falar de periferias seria uma contradição nos próprios termos, um absurdo por traição à própria ideia base.
Comparar os portentados económicos e financeiros do Norte com as maravilhas naturais e humanas do Sul seria ardilosa e capciosa falácia, não só por se tratar de equiparar o incomparável, mas principalmente por traduzir o capcioso embuste da garantia de procura dos originariamente fracos para a oferta dos originariamente poderosos - afinal, a artimanha de anexação dos países consumidores pela voragem dos países super-desenvolvidos.
Sob essa ideia de Europa Comum, Portugal deu o que tinha - e o que lhe competia: mercados de consumo às indústrias e aos capitais do Norte, com portas escancaradas na fronteira; valorização das pessoas, tecnologias e serviços que à Europa Comum interessavam; contenção dos cidadãos a níveis de bem-estar e rendimentos muito abaixo dos almejados para o futuro da tal Europa Comum. Mas a "1ª fase" decorreu e passou. Quando já demos tudo, acabou-se - por isso mesmo - a nossa capacidade para recebermos o que as super-potências do Norte nos oferecem e ao preço que no-lo oferecem. A crise chegou lá e a ganância do lucro e da expansão ilimitados também.

Por cá, não conseguimos ir mais longe no apertar do cinto para sermos pagadores por igual de uma crise que não cavámos e até foi cavada para benefício deles e contra nós.
Deixámos de interessar. A menos que levem a nossa já exangue pobreza até ao extremo, subjugando-nos pela força - das puras armas ou do dinheiro sujo.


Sabem os construtores do novo império germânico, como Merkel, e sabem os que a eles se venderam atraiçoando as suas pátrias, como o alambasado Sarkozy ou o poucochinho Passos Coelho, que deixamos de interessar. Porque o interesse nos países 'periféricos' (agora já são) era da Europa Comum. E a Europa Comum já não existe.

Editorial


A vida observa-se
os olhos abrem-se

os néscios governam
os valores ignoram-se
a ética despreza-se
a prepotência impõe-se

os sensatos dispensam-se
os sábios ostracizam-se
as dúvidas evitam-se
as perguntas rechassam-se

os escrúpulos afrouxam
a vergonha perde-se

os lugares distribuem-se
o mérito subestima-se
os talentos desperdiçam-se
as desculpas inventam-se
as justificações forjam-se
os compadres entendem-se
os afilhados ajeitam-se
os oportunistas seduzem-se

os salários congelam-se
as avenças engordam-se
os iníquos vangloriam-se
a mentira proclama-se

os ministros favorecem
os deputados aproveitam
os autarcas enriquecem
e todos se corrompem

o protesto silencia-se
a oposição humilha-se
a denúncia abafa-se
a indignação persegue-se
a revolta arrasa-se

os interesses calam-se
os interessados compactuam
a promiscuidade instala-se
os cinzentos calam-se
os mansos conformam-se
os fracos rendem-se
os espertos vendem-se

a propaganda especializa-se
a fachada institui-se
as premissas baralham-se
os custos sonegam-se
os resultados inventam-se
a fraude aceita-se
a prosápia acata-se
o embuste decreta-se

os neófitos apressam-se
as influências traficam-se
os direitos usurpam-se
as obrigações incumprem-se
os bens empenham-se
as dívidas crescem
o passado salda-se
o presente liquida-se
o futuro hipoteca-se

os desiludidos demitem-se
a ambição descontrola-se
a vaidade desnorteia-se

os ávidos promovem-se
os ávidos ratificam-se
os ávidos aplaudem-se
os ávidos compensam-se
e recompensam-se

os ávidos rivalizam

os esbirros traem
os cúmplices desmarcam-se
os mandaretes desmacaram-nos
as línguas desprendem-se
e a marosca revela-se

os ombros encolhem-se
os injustiçados cansam-se
os honrados indignam-se
os corajosos revoltam-se
o escândalo rebenta
a barca abandona-se
as culpas assobiam-se
e a vida continua
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