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30 Outubro 2011

Este tempo do cavaquismo



A frase é projetada num vidro da dependência do Banco Invest, na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa. É mais do que um excelente autorretrato da banca. É um resumo do tempo em que vivemos. Sabemos que uma ideia se tornou aceitável quando ela chega à publicidade. O que seria, em qualquer tempo, repugnante, passou a ser valorizado.




Não obedecer, numa qualquer atividade profissional, social, política ou económica, a qualquer imperativo ético não é novo. O que é novo é fazer alarde disso. Quando chegamos a este ponto podemos então identificar um verdadeiro sociopata. Sempre os houve. E, para a vida em comunidade ser possível, os Estados, que supostamente representam aquilo a que, com alguma ingenuidade, chamamos de "bem comum", têm leis. E, para aqueles a quem a sua consciência não determina o respeito pelos outros usa-se, se necessário for, a repressão.
O problema é que o poder dos grupos financeiros é de tal forma avassalador que não há Estado que lhe consiga impor qualquer limite. Pelo contrário, os Estados, que nos deviam representar, transformaram-se no seu braço armado contra os cidadãos, ajudando na pilhagem das empresas produtivas, dos recursos do trabalho e dos cofres públicos. O capitalismo que conhecíamos tinha, apesar de tudo, um propósito que o tentava justificar: a produção. O capitalismo da finança dispensa, pelo contrário, qualquer tipo de legitimação moral. Só que o cinismo na sua forma mais pura é, por natureza, autodestrutivo.
Este anúncio vale o que vale. Está numa pequena dependência de um banco pouco relevante. Num contexto que pode ter muitas leituras e em que provavelmente esta não seria a desejada. Mas pode ser lido como um excelente epitáfio. Estamos no fim de uma era que começou nos anos 70, com a trágica ascensão de Reagan e Thatcher ao poder e com o triunfo dos boys de Chicago. Esta agonia ainda vai causar o caos na Europa e nos EUA. O caos que se resume bem numa frase de um político medíocre que o destino colocou à frente do nosso governo: "só vamos sair da crise empobrecendo". Ou seja, antes problemas de liquidez do que de consciência. Mas a história ensina-nos que tudo tem o limite. E que o milagre do neoliberalismo ter sobrevivido à crise de 2008, que deveria ter provado a sua falência ideológica, não durará muito mais. Só não digo que estou optimista porque ainda vamos sofrer demasiado. Mas quando leio a frase deste anúncio percebo que é a soberba que vai pôr fim a esta loucura.


Editorial


A vida observa-se
os olhos abrem-se

os néscios governam
os valores ignoram-se
a ética despreza-se
a prepotência impõe-se

os sensatos dispensam-se
os sábios ostracizam-se
as dúvidas evitam-se
as perguntas rechassam-se

os escrúpulos afrouxam
a vergonha perde-se

os lugares distribuem-se
o mérito subestima-se
os talentos desperdiçam-se
as desculpas inventam-se
as justificações forjam-se
os compadres entendem-se
os afilhados ajeitam-se
os oportunistas seduzem-se

os salários congelam-se
as avenças engordam-se
os iníquos vangloriam-se
a mentira proclama-se

os ministros favorecem
os deputados aproveitam
os autarcas enriquecem
e todos se corrompem

o protesto silencia-se
a oposição humilha-se
a denúncia abafa-se
a indignação persegue-se
a revolta arrasa-se

os interesses calam-se
os interessados compactuam
a promiscuidade instala-se
os cinzentos calam-se
os mansos conformam-se
os fracos rendem-se
os espertos vendem-se

a propaganda especializa-se
a fachada institui-se
as premissas baralham-se
os custos sonegam-se
os resultados inventam-se
a fraude aceita-se
a prosápia acata-se
o embuste decreta-se

os neófitos apressam-se
as influências traficam-se
os direitos usurpam-se
as obrigações incumprem-se
os bens empenham-se
as dívidas crescem
o passado salda-se
o presente liquida-se
o futuro hipoteca-se

os desiludidos demitem-se
a ambição descontrola-se
a vaidade desnorteia-se

os ávidos promovem-se
os ávidos ratificam-se
os ávidos aplaudem-se
os ávidos compensam-se
e recompensam-se

os ávidos rivalizam

os esbirros traem
os cúmplices desmarcam-se
os mandaretes desmacaram-nos
as línguas desprendem-se
e a marosca revela-se

os ombros encolhem-se
os injustiçados cansam-se
os honrados indignam-se
os corajosos revoltam-se
o escândalo rebenta
a barca abandona-se
as culpas assobiam-se
e a vida continua
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