Este tempo do cavaquismo
A frase é projetada num vidro da dependência do
Banco Invest, na Rua Barata Salgueiro, em Lisboa. É mais do que um excelente
autorretrato da banca. É um resumo do tempo em que vivemos. Sabemos que uma
ideia se tornou aceitável quando ela chega à publicidade. O que seria, em
qualquer tempo, repugnante, passou a ser valorizado.
Não obedecer, numa qualquer atividade
profissional, social, política ou económica, a qualquer imperativo ético não é
novo. O que é novo é fazer alarde disso. Quando chegamos a este ponto podemos
então identificar um verdadeiro sociopata. Sempre os houve. E, para a vida em
comunidade ser possível, os Estados, que supostamente representam aquilo a que,
com alguma ingenuidade, chamamos de "bem comum", têm leis. E, para
aqueles a quem a sua consciência não determina o respeito pelos outros usa-se,
se necessário for, a repressão.
O problema é que o poder dos grupos financeiros
é de tal forma avassalador que não há Estado que lhe consiga impor qualquer
limite. Pelo contrário, os Estados, que nos deviam representar,
transformaram-se no seu braço armado contra os cidadãos, ajudando na pilhagem
das empresas produtivas, dos recursos do trabalho e dos cofres públicos. O
capitalismo que conhecíamos tinha, apesar de tudo, um propósito que o tentava
justificar: a produção. O capitalismo da finança dispensa, pelo contrário,
qualquer tipo de legitimação moral. Só que o cinismo na sua forma mais pura é,
por natureza, autodestrutivo.
Este anúncio vale o que vale. Está numa pequena
dependência de um banco pouco relevante. Num contexto que pode ter muitas
leituras e em que provavelmente esta não seria a desejada. Mas pode ser lido
como um excelente epitáfio. Estamos no fim de uma era que começou nos anos 70,
com a trágica ascensão de Reagan e Thatcher ao poder e com o triunfo dos boys
de Chicago. Esta agonia ainda vai causar o caos na Europa e nos EUA. O caos que
se resume bem numa frase de um político medíocre que o destino colocou à frente
do nosso governo: "só vamos sair da crise empobrecendo". Ou seja,
antes problemas de liquidez do que de consciência. Mas a história ensina-nos
que tudo tem o limite. E que o milagre do neoliberalismo ter sobrevivido à
crise de 2008, que deveria ter provado a sua falência ideológica, não durará
muito mais. Só não digo que estou optimista porque ainda vamos sofrer
demasiado. Mas quando leio a frase deste anúncio percebo que é a soberba que
vai pôr fim a esta loucura.






