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18 Julho 2011

Agricultura sem gravata

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Diz-se, ainda hoje, do mistério do ar condicionado:
" - Finalmente foi descoberta a solução para estes dias quentes de Verão: Quem não tiver ar condicionado, basta tirar a gravata. Tão simples e nunca ninguém se tinha lembrado disto!"
" - A crise foi provocada pelos gastos do ar condicionado? Então está resolvida. O que pouparam com a solução da gravata, podem dar-nos o subsídio de Natal e o que nos diminuiram no vencimento"
" - A equipa agrícola do CDS tomou por paradigma o modelo do seu guru: boné, calças de ganga e beijocas às peixeiras do Mercado do Bulhão, falando do Mar, doce Mar donde nascem lavagantes para umas dezenas de gordos, chicharros para uns milhões de magros, submarinos para sabe-se lá quantos bimbos e 1,5 milhões de euros na Suiça para um finório…"
O diálogo (excerto) vem do FaceBook. O tema, aquela profunda medida de ataque à crise que foi a esconjuração das gravatas no Ministério da Agricultura, aquela luminosa descoberta de que dois graus centígrados abaixo do ar condicionado é que vive a crise, aquele patriótico exemplo de simples vestir para meter portas a dentro do ministério a aurea mediocritas dos verdes campos da nossa "arte de empobrecer alegremente"...
Donde veio a fobia pela gravata? Simples: a equipa ministerial mandou um grupo de trabalho estudar o que é a agricultura - e o resultado foi um relatório de meia dúzia de hectares semeados, com uma multidão de lavradores com um nó ao pescoço. O grupo de trabalho esqueceu-se de explicitar que cada um dos nós ao pescoço pendia de uma árvore.
Questão de checks and balances, que a Vida é como os alcatruzes da nora: neste caso, desapertam-se os nós ao pescoço de uns à medida que se apertam os dos outros...

Editorial


A vida observa-se
os olhos abrem-se

os néscios governam
os valores ignoram-se
a ética despreza-se
a prepotência impõe-se

os sensatos dispensam-se
os sábios ostracizam-se
as dúvidas evitam-se
as perguntas rechassam-se

os escrúpulos afrouxam
a vergonha perde-se

os lugares distribuem-se
o mérito subestima-se
os talentos desperdiçam-se
as desculpas inventam-se
as justificações forjam-se
os compadres entendem-se
os afilhados ajeitam-se
os oportunistas seduzem-se

os salários congelam-se
as avenças engordam-se
os iníquos vangloriam-se
a mentira proclama-se

os ministros favorecem
os deputados aproveitam
os autarcas enriquecem
e todos se corrompem

o protesto silencia-se
a oposição humilha-se
a denúncia abafa-se
a indignação persegue-se
a revolta arrasa-se

os interesses calam-se
os interessados compactuam
a promiscuidade instala-se
os cinzentos calam-se
os mansos conformam-se
os fracos rendem-se
os espertos vendem-se

a propaganda especializa-se
a fachada institui-se
as premissas baralham-se
os custos sonegam-se
os resultados inventam-se
a fraude aceita-se
a prosápia acata-se
o embuste decreta-se

os neófitos apressam-se
as influências traficam-se
os direitos usurpam-se
as obrigações incumprem-se
os bens empenham-se
as dívidas crescem
o passado salda-se
o presente liquida-se
o futuro hipoteca-se

os desiludidos demitem-se
a ambição descontrola-se
a vaidade desnorteia-se

os ávidos promovem-se
os ávidos ratificam-se
os ávidos aplaudem-se
os ávidos compensam-se
e recompensam-se

os ávidos rivalizam

os esbirros traem
os cúmplices desmarcam-se
os mandaretes desmacaram-nos
as línguas desprendem-se
e a marosca revela-se

os ombros encolhem-se
os injustiçados cansam-se
os honrados indignam-se
os corajosos revoltam-se
o escândalo rebenta
a barca abandona-se
as culpas assobiam-se
e a vida continua
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